Archive for June, 2007



Nem por você, nem por ninguém?

Eu jurei que seria diferente comigo. Milhões de mães, bilhões delas, enfim, todas as que passaram pelo mundo e que não apresentaram algum tipo de desvio psicótico grave são assim. Como eu, que não tenho nenhuma doença mental grave diagnosticada até o momento, seria diferente?

Assim como? Ahn, assim, dedicada demais. Dedicada a ponto de sentir o chão faltar ao ver o filhote mencionar o desejo de abandonar o ninho. Dirão vocês que a Alice só tem quase quatro anos e que é cedo demais para eu ter preocupações do tipo. Concordo. Mas já sei; reagirei assim.

Quando eu estava grávida, jurei não mudar minha vida e meus planos futuros em função dela, já que ela cresceria como qualquer filha normal e me deixaria um dia. Pobre adolescente encanada. Lógico que seria diferente. Nos últimos quatro anos, desisti dos meus planos, um de cada vez. Mudei alguns e desisti inclusive das adaptações:

Plano A

- Direito

- Mestrado/especialização/qualquer coisa no exterior, preferencialmente França

- Concurso público para me tornar uma juíza/promotora/whatever

- Encontrar o príncipe encantado, casar e ser feliz até que a morte chegar.

Plano B

- Biblioteconomia

- Mestrado/especialização/ qualquer coisa em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro

- Concurso público para me tornar uma bibliotecária e/ou professora na área.

- Encontrar um cara legal que aceite dividir um pouco de sua vidinha comigo.

Plano C (atual)

- Tentar terminar o curso (biblioteconomia).

- Conseguir um emprego qualquer que pague, pelo menos, metade das minhas contas.

- Ficar sozinha até o fim dos dias.

Não posso dizer que a culpa é da Alice. Eu seria a maior mentirosa do planeta. Ela é supercompanheira, nunca me atrapalhou em nada. Só que, mamãe que sou, eu quero o menor dos sofrimentos pra ela. Pra quê tirá-la do convívio com familiares e amiguinhos? Como jogar fora com estudos excessivos um tempo que poderia passar com ela? Pra quê colocar alguém no meio da nossa relação?

Quando me vi, estava assim. Colocando-a em primeiro lugar, sempre. Um dia, ela vai sair de casa. E eu não terei mais motivo. A menos que ela me dê um neto pra mimar, aos 35 eu parecerei uma senhora de 60, com o sentimento de dever cumprido, esperando a morte. Ops, se ela me der um neto, também parecerei uma senhora de 60. O que importa é que tenho 20 e me sinto uma quarentona desestimulada. Não que todas sejam, mas muitas começam a se sentir assim com essa idade e…

Testamento digital

Peço que algumas providências sejam tomadas em caso de falecimento. Mórbido, dirão alguns comentaristas, mas é preciso pensar em tudo.

A primeira é: apaguem tudo. Flickr, fotolog, lastfm, blog, orkut, tudo. Formatem meu HD.

Eu gostaria que as únicas pessoas portadoras da senha do meu pc fizessem isso, já que apenas nele seria possível encontrar minhas senhas. Não, não as guardo num arquivo chamado ’senhas’, não adianta tentarem invadi-lo. Mesmo que as encontrassem, creio que não compreenderiam. Precisa de um pouquinho de cérebro para tranformar as palavras em senhas.

Fugindo do mundinho virtual, gostaria que queimassem não apenas o meu corpo, mas também tudo o que eu produzi, tudo o que acumulei de passado e memória. Sei que muitos acham minha atitude egoísta para com meus descendentes, mas penso que minhas memórias dizem respeito somente a mim, não a futuros curiosos. Sim, fico feliz ao encontrar cartas e pedaços de lembranças de meus avôs, mas não desejo essa mórbida curiosidade a ninguém.

Tudo isso pois fico pasma ao ver o que fazem em perfis de pessoas que falecem. Absurdos do tipo vá em paz, deus o tenha, etc.. Isso é realmente necessário? Acho que só se pode morrer com dignidade se o esquecimento vier em seguida. Claro, não trato aqui de grandes pessoas públicas, que devem ser lembradas por seus feitos e seus escritos. Falo dos ninguéns como eu. Quero ser esquecida tão logo resolvam-se as pendências necessárias e tenho dito.

Tudo o que restar pertence a Alice e só espero que sempre haja alguém para cuidar dela, mesmo aos seus oitenta anos. Alguém tão doce não merece a solidão.

Como abrir uma garrafa de vinho com rolha vagabunda: fotonovela

Não faça nada disso . Ou faça tudo aquilo, enfim. Sugiro seguir o meu tutorial no flickr, que está altamente desorganizado.

Comece com os intrumentos adequeados, exibidos na fotografia abaixo:

Você precisa de...

Se a rolha for uma autêntica rolha vagabunda, o vinho não abrirá com o saca-rolhas, a menos que haja um homem por perto. Como é possível perceber na imagem acima, homem não estava entre as ferramentas. É importante saber trabalhar com os recursos disponíveis. Se tu trabalhas numa biblioteca que não tem nada, precisa ser tão competente quanto em uma que… ops, essa frase era do portfolio da disciplina da Patrícia.

Após perceber que a maldita rolha não quer sair por bem, tente todas as outras ferramentas disponíveis. Uma de cada vez. Depois, todas ao mesmo tempo, como demonstrado abaixo:

Tentativa mil e trezentos

Certamente essa tentativa também será falha. Desista, sente numa cadeirinha de criança, pegue o saca-rolhas novamente e…
Eureka!

aeeee o/ mazá ;D

Créditos para Lilly, que trouxe o saca-rolhas e fotografou toda a palhaçada.

Catalogar até cair

Sabe-se que alguém não é normal quando, numa noite de sexta, esse alguém passa pela biblioteca ainda aberta, após o seu expediente e pensa: eu queria estar lá. E catalogar até cair.

Tudo é possível

Diálogo:

- Mãããe, a Nenê derrubou leite no vestido!

- Alice, por isso eu te digo pra não dar leite às tuas bonecas! Elas não podem tomá-lo. Claro que “a Nenê”  – ênfase nas aspas e na cara de não-acredito-nisso – acabaria virando o leite.

- Mãe, elas podem tomar SIM. Eu deixo.

Ah, tá. Se a Alice deixa, tudo é possível.

Auto-ajuda: dia dos namorados

Você, amiguinha deprimida com a data, atenção! Tenho conselhos que podem ser úteis – ou não. Não sou a pessoa mais indicada a dar conselhos sobre o assunto. Meus ex podem atestar que nunca fui ligada a datas comemorativas. Acho bacana que lembrem de eventos, mas realmente não fico chateada com esquecimentos. Seria uma maluca se me importasse, já que esqueço do que almocei ontem e só me dou conta do dia dos namorados ao ver meninas com flores ou lenços molhados nas mãos.

Esse ano passarei sozinha, amém, como no ano passado. Não que eu seja feliz ou infeliz sozinha: contudo, a idéia de ir a um restaurante lotado ou fazer programas românticos com a minha filha a tiracolo definitivamente não me anima.

Às choronas e invejosas eu recomendo meu programa antidepressivo. Se funciona nos dias em que estou deprê, deve funcionar pra quem se chateia no dia dos namorados, também:

Ingredientes:

- 1 aparelho reprodutor de dvd

- 3 dvds a escolher (sugestões: Poderoso Chefão, qualquer um de ação, episódios de Lost, Xeque-Mate, enfim, qualquer um que passe longe de ser uma comédia romântica)

- chocolate, dos bons.

- outra sobremesa qualquer, preferencialmente a favorita

- jantar, melhor ainda se preparado pela criatura em prantos

- pilha de livros

- louça pra lavar

Modo de preparo:

Chegue em casa, tire os sapatos, tome um banhinho bom. Coloque o pijama mais surrado e confortável. Veja um dos filmes comendo chocolate. Faça o jantar. Veja o próximo enquanto come o jantar. Lave a louça. Assista ao outro filme comendo a sobremesa. Lave mais louça. Vá pra cama e leia até dormir.

Duvido que alguma depressãozinha resista. Ok, ela sempre resiste, mas assim fica escondidinha por uma noite.

O que diz? Não, COMO diz.

Algo que adoro na literatura em geral é que sempre descobrimos formas novas de dizer o óbvio.

A cena abaixo (AUSTER, 2004, p. 76) é linda, se observada pelo ângulo proposto pelo autor no momento. Após a leitura final do livro, ela adquiriu outro sentido pra mim.

Grace fechou os olhos e sorriu.”Você sempre me amou, não é, Sidney?”

“Desde o primeiro momento em que te vi.”

“Sabe porque eu casei com você?”

“Não. Nunca tive coragem de perguntar.”

“Porque você nunca me decepciona.”

Antes parecia um jeito de dizer: te amo porque tu nunca me decepcionas. Depois me pareceu (atenção, não está explícito no livro!) uma forma de dizer: nunca te amei, idiota. Isso se as fantasias do autor estiverem certas e se a minha interpretação sobre o que ele percebeu tiverem algum fundamento. No mundo real, teriam: casou com ele porque ele nunca a decepciona, ao contrário do outro que não sabia o que queria, se podia e se não podia.

AUSTER, Paul. Noite do Oráculo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O que diz? Não, COMO diz.

Algo que adoro na literatura em geral é que sempre descobrimos formas novas de dizer o óbvio.

A cena abaixo (AUSTER, 2004, p. 76) é linda, se observada pelo ângulo proposto pelo autor no momento. Após a leitura final do livro, ela adquiriu outro sentido pra mim.

Grace fechou os olhos e sorriu.”Você sempre me amou, não é, Sidney?”

“Desde o primeiro momento em que te vi.”

“Sabe porque eu casei com você?”

“Não. Nunca tive coragem de perguntar.”

“Porque você nunca me decepciona.”

Antes parecia um jeito de dizer: te amo porque tu nunca me decepcionas. Depois me pareceu (atenção, não está explícito no livro!) uma forma de dizer: nunca te amei, idiota. Isso se as fantasias do autor estiverem certas e se a minha interpretação sobre o que ele percebeu tiverem algum fundamento. No mundo real, teriam: casou com ele porque ele nunca a decepciona, ao contrário do outro que não sabia o que queria, se podia e se não podia.

AUSTER, Paul. Noite do Oráculo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Vou acampar na reitoria

Como assim, meia dúzia de gatos pingados pede ações afirmativas (cotas raciais), um RU pra UM curso, garantia de não-fechamento do DACOM, CEABI e diaboaquatro e a reitoria baixa a cabeça? Vou acampar na reitoria por ser contra as cotas, contra mais gastos públicos e contra a pseudo-representação estudantil.

Post-it

Estava no meu passeio rotineiro na casa do papel e adjacências, olhando quinquilharias de papaleria. Tudo parecia normal, i.e., caro, até que vi na prateleira de post-its um de cor sem-graça.

Pra quê um troço desses, quase branco? Todos sabem que post-its precisam ser chamativos e… me aproximei da gôndola com esses pensamentos. Constatei, com certa indignação, que era um post-it feito de papel reciclável (o mais clarinho da figura abaixo)!

Há tempos os bobotecários que se preocupam com a conservação de livros reclamam da colinha dos post-its. Dizem que ela estraga papéis, que ela faz mal, que o livro se desintegrará em poucos meses. Bom, eu sou uma futura bobotecária despreocupada com as gerações futuras e os anos vindouros; acredito que um pouquinho de cola não mata nenhum clássico da literatura.

Aliás, se o que colegas afirmam for verdadeiro e suas caras de horror ao me ver colar um post-it no meio de um livro têm mesmo sentido, começarei a colar post-its em todas as porcarias que encontrar nas livrarias e bibliotecas. Imagina se a moda pega? Desfazimento nunca mais, basta colar um post-it e o livro some, deixando apenas o código de barras!

Tudo isso pra dizer que a post-it gasta energias e fundos com a maldita reciclagem ao invés de pensar em soluções menos agressivas para o adesivo, problema mais relevante*.

Eu os considero a melhor invenção para bibliotecários, apesar do pequeno defeito. O usuário deixa de escrever diretamente no livro, não usa as orelhas para marcar página… Tudo isso é muito pior para a conservação do material que um pouco de cola, causadora, talvez, de um problema em uma folinha… O papel pode ficar mais ácido/básico/cheiodebolinhas/esquisito, mas não será afetado imediatamente. Mesmo assim, com a tecnologia existente e o dinheiro empregado em malditos post-its recicláveis, acredito que a 3m poderia pensar um pouquinho no caso e desenvolver uma colinha que não agrida os livros, posto que eles são muito mais importantes que um bando de eucaliptos.

E viva o suporte eletrônico, que não gera essas discussões chatas.

*Para não horrorizá-los com a minha maldosa opinião anti-verdinhos, eu tenho uma desculpa ecologicamente perfeita: a reciclagem gasta MUITA água. Sim, essa mesma que vocês insistem em dizer que acabará em quinze minutos. Na prática, não vale a pena poupar um punhado de eucaliptos (sim, eucaliptos, as pragas daninhas) e gastar muitos litros do precioso líquido. Certo?

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